Fernando consulta as notícias antes do café ficar pronto e arrepende-se imediatamente. Mais um veto presidencial. Mais um recurso constitucional. Mais um discurso sobre "especulação de capital" e "exploração dos trabalhadores." Quatro anos disto, e a sua tensão arterial sofre.
A fábrica de móveis funciona apesar de Catarina Martins, não por causa dela. As encomendas vêm da Alemanha, França, Países Baixos—países cujos líderes olham para o conflito institucional permanente de Portugal com preocupação. "Está tudo estável aí?" perguntou o seu parceiro alemão no trimestre passado. Fernando mentiu e disse que sim.
A manhã traz papelada. Obrigações fiscais, regulamentos laborais, conformidade ambiental—a montanha habitual. Nada mudou dramaticamente desde 2026; o governo AD ainda controla a política real. Mas a atmosfera mudou. Os trabalhadores citam os discursos da Presidente sobre "salários dignos." Os fornecedores perguntam sobre "sourcing ético." A linguagem da presidência infiltra-se nas relações comerciais.
A sua contabilista, Dona Fátima, traz preocupações sobre a incerteza. "O investimento está hesitante," observa ela. Não colapsou—Portugal não se tornou Cuba, apesar de alguma retórica—mas cauteloso. A Presidente que fala contra o "capitalismo predatório" todas as semanas põe os investidores estrangeiros nervosos. Mesmo que ela não consiga realmente mudar a política, a perceção importa.
O almoço no restaurante habitual traz conversa com outros empresários. Pedro, o exportador de cerâmica, votou em Catarina—sim, alguns empresários votaram, a crise habitacional tocou a todos. Está menos certo agora. "Queria alguém que se preocupasse com as pessoas," diz ele. "Tive guerra política permanente." A distinção entre preocupar-se e governar tornou-se dolorosamente clara.
As notícias da tarde mostram a decisão do Tribunal Constitucional sobre mais um recurso presidencial. A AD ganha novamente; a política do governo prossegue. Mas o atraso, a incerteza, o sinal aos mercados—isto tem custos mesmo quando o resultado favorece a continuidade.
O filho de Fernando, Ricardo, que regressou da Bélgica há três anos, começou a falar em partir novamente. "O ambiente político é exaustivo," diz ele. Não perigoso—Ricardo reconhece que Catarina não está a implementar o comunismo—apenas exaustivo. O conflito constante, a incerteza, a sensação de que Portugal está a lutar consigo próprio em vez de construir algo.
O jantar com a sua esposa, Maria José, traz reflexão. Ela votou em Gouveia e Melo, o candidato derrotado. "Pelo menos ele teria sido calmo," diz ela. Fernando concorda. O que quer que se pense dos valores de Catarina—e ele não concorda com a maioria deles—a presidência como confrontação permanente desgasta todos.
O noticiário da noite mostra Catarina num comício de trabalhadores, a falar apaixonadamente sobre habitação, salários, dignidade. Fernando assiste com sentimentos conflituosos. Ela não está errada sobre os problemas. Os trabalhadores merecem mais. A habitação é uma crise. Mas a sua solução—ou não-solução, já que ela não consegue implementar nada—é lutar constantemente enquanto nada melhora.
Antes de dormir, revê o plano de produção de amanhã. A fábrica vai operar. As encomendas vão ser enviadas. Os trabalhadores vão ser pagos. A vida continua apesar do drama político. Talvez essa seja a lição: Portugal sobreviveu a coisas piores do que uma presidência ativista. Vai sobreviver a isto também.
Mas sobreviver não é prosperar. E quatro anos de conflito ideológico têm custos mesmo quando a política não muda.