Fernando lê as notícias da manhã com algo que se aproxima de satisfação—um sentimento raro sobre a política portuguesa. O último discurso de Cotrim sobre competitividade, desregulação, o "espírito empreendedor"—finalmente, alguém em Belém que fala a sua língua.
A fábrica funciona eficientemente. As encomendas do norte da Europa continuam fortes; o portal digital para exportações funciona agora; as reformas burocráticas que o Presidente defendeu fizeram alguma diferença. Não transformação, mas melhoria. Fernando aprendeu a apreciar a melhoria.
Os seus parceiros alemães visitaram no mês passado. "Portugal é interessante," disse o Klaus. Não tão entusiasmado como com a Estónia ou a Irlanda, mas "interessante." O clima de investimento aqueceu. O Presidente que aparece em Davos a falar sobre competitividade ajuda. A perceção importa nos negócios.
As reuniões da manhã reveem os números do trimestre. Receita aumentou 8%; margem ligeiramente melhorada; nova maquinaria financiada através do programa apoiado pela UE que Cotrim promoveu. A fábrica contratou três novos trabalhadores—posições qualificadas, contratos adequados, o emprego que Fernando acredita em criar. Isto é economia liberal feita corretamente, diz a si próprio.
A conversa ao almoço com outros empresários é diferente dos velhos tempos. Pedro, o exportador de cerâmica, está otimista—pela primeira vez em anos. "Alguém que realmente percebe de negócios," diz ele. As queixas não desapareceram—custos laborais, preços de energia, burocracia portuguesa interminável—mas a direção parece certa.
A tarde traz uma complicação. O representante sindical levanta preocupações sobre as medidas de flexibilidade propostas—despedimentos mais fáceis, mais contratos temporários. "O Presidente apoia isto," diz o representante, "e os trabalhadores vão sofrer." Fernando acredita que a flexibilidade cria empregos; o sindicato acredita que cria precariedade. Esta tensão não se resolveu.
O seu filho Ricardo regressou da Bélgica há dois anos—os incentivos fiscais para emigrantes que regressam funcionaram no caso dele. Ganha menos do que em Bruxelas mas gosta de Lisboa; a cena tecnológica está a crescer; o "estilo de vida português" tem valor. Fernando conta isto como vitória, pessoal e nacional.
O jantar traz reflexão sobre a presidência. Cotrim não resolveu a habitação—soluções de mercado funcionam lentamente, se é que funcionam. A saúde ainda luta—o investimento público não é o foco liberal. A desigualdade pode estar a crescer—a maré alta não levanta todos os barcos igualmente. Fernando conhece estas críticas. Pensa que a alternativa—mais regulação, mais impostos, mais estado—seria pior.
O noticiário da noite mostra Cotrim numa cimeira tecnológica, a anunciar atração de investimento, a celebrar criação de emprego. Fernando sente-se representado. Depois de décadas de presidentes que pareciam desconfiados dos negócios, aqui está um que percebe. Se "perceber" é suficiente para os problemas de Portugal—questão diferente.
Antes de dormir, Fernando revê o plano de negócios para expansão. Correr riscos requer confiança; confiança requer previsibilidade; previsibilidade requer governação que não ameace a cada passo. Esta presidência fornece isso, pelo menos. Não é utopia. É progresso.
Ele aceita o progresso.