História de Futuro

Paula Moreira, 49, Trabalhadora Industrial do Norte

Zona fabril têxtil de Guimarães

15 de janeiro de 2030

Paula começa o turno com a dor familiar nas costas e a dor mais recente da incerteza. A fábrica mudou desde que as reformas de "flexibilidade" passaram—reformas de Cotrim, embora implementadas pelo governo. Mais fácil despedir agora. Contratos mais curtos. O sindicato mais fraco.

Ela ainda tem o emprego. Vinte e cinco anos contam para algo. Mas colegas foram dispensados—"reestruturação," diz a gerência—e substituídos por trabalhadores temporários que ganham menos, com menos proteções. O Presidente chama a isto "dinamismo." Paula tem outra palavra para isso.

O trabalho da manhã é mais difícil com menos mãos. As máquinas não sabem das reformas de flexibilidade; ainda requerem o mesmo trabalho. Paula e os colegas restantes absorvem a carga de trabalho. Produtividade a subir. Salários estagnados. Esta é a promessa liberal na prática.

O almoço na cantina traz conversa amarga. A Célia foi "flexibilizada" para fora no mês passado—vinte anos de serviço, depois noventa dias de aviso e nada. Está no centro de emprego agora, cinquenta e dois anos, a competir com licenciados por empregos que não existem. "O Presidente diz que isto cria oportunidade," murmura alguém. "Para quem?"

A tarde traz um anúncio: a empresa-mãe alemã da fábrica vai investir em equipamento novo. Segurança de emprego, talvez—ou automação que vai eliminar mais posições. No Portugal de Cotrim, o capital flui mais livremente. Os trabalhadores sentem-no, positiva e negativamente.

Depois do trabalho, a reunião sindical é escassa. As reformas enfraqueceram a negociação coletiva; os membros dispersaram-se; a esperança desvaneceu-se. O representante da CGTP fala sobre resistência, sobre solidariedade, mas o poder mudou. O Presidente que defende a "oportunidade individual" não menciona proteção coletiva.

A filha da Paula liga de Lisboa. Tem um emprego novo—setor tecnológico, a indústria em crescimento que Cotrim celebra. Bom salário, boas perspetivas. "Talvez as coisas estejam a melhorar," diz ela. Paula não discute. Para alguns, sim. Para jovens profissionais licenciados em Lisboa, sim. Para trabalhadoras têxteis de cinquenta anos no norte? História diferente.

Jantar sozinha—o marido trabalha turnos noturnos agora, o horário "flexibilizado" para corresponder às necessidades de produção. Veem-se menos. A unidade familiar que o liberalismo social de Cotrim afirma valorizar não inclui horários de classe trabalhadora, aparentemente.

O noticiário da noite mostra o Presidente a falar sobre competitividade, inovação, a economia do futuro. Palavras bonitas, pensa Paula, para pessoas já posicionadas para beneficiar. E os outros? E os trabalhadores cuja flexibilidade é apenas precariedade com marketing?

Antes de dormir, calcula as suas finanças. Ligeiramente piores do que há quatro anos—o crescimento salarial não acompanhou a inflação, os benefícios foram reduzidos, o poder negocial do sindicato diminuiu. Isto é o que o liberalismo lhe trouxe: mais risco, menos segurança, e um Presidente que explica porque é que isto é na verdade bom.

Ela não acredita nele. Mas a crença não importa quando as leis mudam.

Reflexão

Paula experiencia a presidência de Cotrim como uma ameaça envolta em linguagem progressista. As reformas de flexibilidade que entusiasmam os negócios significam precariedade para os trabalhadores. Os ganhos de competitividade não chegam ao seu salário. Para eleitores da classe trabalhadora, a economia liberal levanta a questão: prosperidade para quem?