Manuel acorda antes do amanhecer, como faz há quarenta anos. O porto espera. Os navios esperam. O trabalho espera. O que é diferente, passados quatro anos, é quem espera no Palácio de Belém. Um deles. Um presidente comunista. Manuel ainda tem dificuldade em acreditar.
O rádio da manhã toca enquanto se veste. A voz de António Filipe, fazendo mais uma declaração sobre salários, sobre direitos dos trabalhadores, sobre a dignidade do trabalho. Manuel ouviu estas palavras em reuniões do partido durante décadas. Ouvi-las vindas da presidência é diferente. Reivindicação após anos em que a esquerda parecia destinada à irrelevância.
No porto, o trabalho continua — carregar, descarregar, o ritmo do comércio global que não se importa com a política portuguesa. Mas o ambiente é diferente. Os seus colegas andam mais erguidos, de alguma forma. O presidente menciona os trabalhadores, especificamente, regularmente. Não como problema a gerir mas como fundamento da sociedade. Isto importa mesmo quando a política não muda.
A reunião do sindicato ao almoço está animada. Os dirigentes nacionais reuniram-se com o presidente no mês passado — em Belém, como convidados, não como suplicantes. As fotografias circularam amplamente: estivadores, operários de fábrica, trabalhadores de serviços, recebidos com honra pelo chefe de Estado. Para a geração de Manuel, que se lembra de ser desprezada como "comunistas" com desprezo, este reconhecimento cura alguma coisa.
Mas reconhecimento não é política. O governo da AD continua a privatizar, a desregular, a ignorar os vetos presidenciais. O Tribunal Constitucional decidiu contra Filipe duas vezes no ano passado. As reformas de mercado prosseguem. Manuel compreende: a presidência é uma plataforma, não poder. Ainda assim, uma plataforma importa. A voz importa.
A tarde traz notícias de outro confronto. O presidente recusou assistir a uma cerimónia da NATO; o governo pediu desculpa; a imprensa internacional escreveu sobre "o problema comunista de Portugal." Manuel sente um orgulho complicado. Filipe está a defender princípios. Mas princípios sem poder — isso é estratégia ou gesto?
A sua mulher, Maria, é mais cética. "O que é que ele realmente fez?" pergunta ela ao jantar. Manuel enumera os vetos — rejeitados. Os discursos — ignorados pelo governo. A solidariedade internacional — condenada por Bruxelas. "Ele está a lutar," insiste Manuel. "A lutar e a perder," responde Maria. Ela também votou nele. Também não está satisfeita.
O noticiário da noite mostra análise de mercados. As obrigações portuguesas ainda se vendem, embora a taxas mais altas. O investimento continua, embora mais cautelosamente. O apocalipse que os negócios previram não chegou. Mas o paraíso dos trabalhadores também não. Portugal vai-se aguentando, como sempre, nem transformado nem colapsado.
Manuel vê o discurso de Filipe — esta noite sobre saúde, SNS, o direito à saúde. Cada palavra verdadeira. Cada proposta bloqueada. O presidente como consciência em vez de governante. Manuel votou na revolução e ficou com testemunha.
Antes de dormir, lê O Avante, o jornal do partido. A análise enquadra tudo como luta, progresso, avanço histórico. Manuel quer acreditar. Aos cinquenta e oito anos, após quarenta anos de espera, um trabalhador senta-se em Belém. Isso não é nada. Isso pode ser tudo.
Se tudo é suficiente — pergunta diferente.