História de Futuro

Manuel Costa, 58, Estivador de Setúbal

Zona portuária de Setúbal

15 de janeiro de 2030

No futuro "António Filipe"

Manuel acorda antes do amanhecer, como faz há quarenta anos. O porto espera. Os navios esperam. O trabalho espera. O que é diferente, passados quatro anos, é quem espera no Palácio de Belém. Um deles. Um presidente comunista. Manuel ainda tem dificuldade em acreditar.

O rádio da manhã toca enquanto se veste. A voz de António Filipe, fazendo mais uma declaração sobre salários, sobre direitos dos trabalhadores, sobre a dignidade do trabalho. Manuel ouviu estas palavras em reuniões do partido durante décadas. Ouvi-las vindas da presidência é diferente. Reivindicação após anos em que a esquerda parecia destinada à irrelevância.

No porto, o trabalho continua — carregar, descarregar, o ritmo do comércio global que não se importa com a política portuguesa. Mas o ambiente é diferente. Os seus colegas andam mais erguidos, de alguma forma. O presidente menciona os trabalhadores, especificamente, regularmente. Não como problema a gerir mas como fundamento da sociedade. Isto importa mesmo quando a política não muda.

A reunião do sindicato ao almoço está animada. Os dirigentes nacionais reuniram-se com o presidente no mês passado — em Belém, como convidados, não como suplicantes. As fotografias circularam amplamente: estivadores, operários de fábrica, trabalhadores de serviços, recebidos com honra pelo chefe de Estado. Para a geração de Manuel, que se lembra de ser desprezada como "comunistas" com desprezo, este reconhecimento cura alguma coisa.

Mas reconhecimento não é política. O governo da AD continua a privatizar, a desregular, a ignorar os vetos presidenciais. O Tribunal Constitucional decidiu contra Filipe duas vezes no ano passado. As reformas de mercado prosseguem. Manuel compreende: a presidência é uma plataforma, não poder. Ainda assim, uma plataforma importa. A voz importa.

A tarde traz notícias de outro confronto. O presidente recusou assistir a uma cerimónia da NATO; o governo pediu desculpa; a imprensa internacional escreveu sobre "o problema comunista de Portugal." Manuel sente um orgulho complicado. Filipe está a defender princípios. Mas princípios sem poder — isso é estratégia ou gesto?

A sua mulher, Maria, é mais cética. "O que é que ele realmente fez?" pergunta ela ao jantar. Manuel enumera os vetos — rejeitados. Os discursos — ignorados pelo governo. A solidariedade internacional — condenada por Bruxelas. "Ele está a lutar," insiste Manuel. "A lutar e a perder," responde Maria. Ela também votou nele. Também não está satisfeita.

O noticiário da noite mostra análise de mercados. As obrigações portuguesas ainda se vendem, embora a taxas mais altas. O investimento continua, embora mais cautelosamente. O apocalipse que os negócios previram não chegou. Mas o paraíso dos trabalhadores também não. Portugal vai-se aguentando, como sempre, nem transformado nem colapsado.

Manuel vê o discurso de Filipe — esta noite sobre saúde, SNS, o direito à saúde. Cada palavra verdadeira. Cada proposta bloqueada. O presidente como consciência em vez de governante. Manuel votou na revolução e ficou com testemunha.

Antes de dormir, lê O Avante, o jornal do partido. A análise enquadra tudo como luta, progresso, avanço histórico. Manuel quer acreditar. Aos cinquenta e oito anos, após quarenta anos de espera, um trabalhador senta-se em Belém. Isso não é nada. Isso pode ser tudo.

Se tudo é suficiente — pergunta diferente.

Reflexão

Manuel experiencia a presidência de Filipe como reivindicação histórica e frustração prática. A conquista simbólica de um presidente comunista valida décadas de compromisso; as restrições estruturais demonstram que o poder presidencial sozinho não pode transformar o capitalismo português. Para os militantes do PCP, a questão é se testemunho e voz são vitórias ou prémios de consolação.