Fernando verifica as taxas de câmbio logo de manhã, como tem feito todas as manhãs desde que o comunista tomou posse. A relação euro-dólar importa para as exportações; o spread das obrigações portuguesas importa para o financiamento. Quatro anos desta vigilância. Quatro anos à espera que o pior aconteça.
Não aconteceu. O apocalipse que temia — fuga de capitais, isolamento internacional, colapso ao estilo da Venezuela — não se materializou. A AD governa. O parlamento rejeita vetos. A UE monitoriza mas não intervém. Portugal continua, improvavelmente, com um presidente da foice e martelo e uma economia de mercado funcional.
A fábrica funciona. As encomendas vêm da Alemanha, embora menos do que antes — alguns clientes preocupados com "instabilidade política" mudaram-se para a Polónia. Fernando perdeu talvez 15% do negócio por causa da perceção. A perceção importa quando o teu presidente faz discursos sobre "capitalismo parasitário."
As reuniões da manhã trazem as preocupações habituais. O seu contabilista avisa sobre potenciais mudanças de política — sempre "potenciais," nunca reais, porque o governo não muda de política só porque o presidente exige. Mas a incerteza custa. Decisões de investimento adiadas. Planos de expansão arquivados. O clima de confrontação torna impossível o planeamento.
O almoço com outros empresários é terapia e queixume. Todos têm histórias: contratos perdidos, parceiros preocupados, bancos a fazer perguntas desconfortáveis sobre "exposição ao risco político português." Nenhum deles faliu. A maioria está a sobreviver. Mas sobrevivência não é crescimento. Cautela não é confiança.
As notícias da tarde mostram Filipe a discursar num comício de trabalhadores. A linguagem é inflamatória — "exploração," "luta de classes," "guerra do capital contra o trabalho." Fernando ouve-se condenado pelo seu presidente. O homem em Belém considera o trabalho da sua vida — construir um negócio, criar empregos, servir clientes — como predação. Isto não é apenas desacordo político. É rejeição existencial.
O seu filho Ricardo, que regressou da Bélgica há três anos, está a pensar partir outra vez. "Não consigo construir uma carreira aqui," diz ele. "O ambiente é tóxico." Fernando não discute. Os jovens profissionais que ele esperava que regressassem, a fuga de cérebros que esperava que revertesse — a presidência de Filipe conseguiu o oposto. Quem investe num país onde o chefe de Estado denuncia o investimento?
O jantar com a sua mulher traz conversa cansada. "Quanto tempo mais?" pergunta ela. Fernando não sabe. Filipe pode tentar a reeleição — provavelmente ganharia outra vez, com a coligação anti-direita a aguentar. Ou o PS pode recuperar. Ou outra coisa pode quebrar. O futuro é opaco de formas que não era antes.
O noticiário da noite mostra análise de mercados. Investimento europeu em Portugal: em baixa. Investimento espanhol: muito em baixa. Americano: mínimo. "Incerteza política" citada em todos os relatórios. O presidente faz discursos sobre o capital estrangeiro a explorar Portugal. O capital estrangeiro responde indo para outro lado. Ironia, ou estratégia, ou ambos.
Antes de dormir, Fernando revê a previsão reduzida para o próximo ano. A fábrica vai sobreviver — sobreviveu a tudo — mas o crescimento não virá nestas condições. Está a gerir declínio, não a construir futuro.
"Mais quatro anos?" pergunta ao teto. Talvez. E se sim, então o quê?