História de Futuro

Wilson Semedo, 42, Cabo-verdiano de Segunda Geração

Cova da Moura, Amadora (periferia de Lisboa)

15 de janeiro de 2030

Wilson acorda às 6h no apartamento que aluga há quinze anos. O bairro não mudou muito — os mesmos prédios, as mesmas caras, a mesma mistura de portugueses, cabo-verdianos, angolanos, guineenses. O que mudou foi o volume. O zumbido de fundo constante de ameaça acalmou desde 2026.

A viagem de manhã para o trabalho no hotel é rotina. Wilson já não guarda o BI no bolso da frente. A polícia ainda está presente — Gouveia e Melo era exigente com a segurança, sempre — mas a abordagem parece menos... direcionada. Aplicação regular da lei, não assédio seletivo. A diferença importa.

No trabalho, a cozinha funciona no seu ritmo familiar. O Chef Manel, do Porto, é o mesmo de sempre: exigente, justo, desinteressado de onde és desde que saibas cozinhar. A equipa ainda é multinacional — brasileiros, nepaleses, cabo-verdianos, portugueses. Os debates sobre imigração de 2026 desvaneceram-se; as pessoas vieram, ficaram, trabalharam. A vida continuou.

A pausa de almoço traz uma chamada da irmã, a enfermeira no Fernando Fonseca. Está ocupada — sempre ocupada — mas menciona um novo programa de formação que o hospital está a oferecer. Progressão na carreira, finalmente. Sob governos anteriores, estivera presa na mesma posição durante anos. Algo mudou na forma como os serviços públicos tratam os profissionais de origem PALOP. Ou talvez ela tenha sido suficientemente persistente para conseguir avançar.

A tarde passa sem incidentes. Wilson aprendeu a não celebrar o "sem incidentes." Durante anos, "sem incidentes" para alguém com a aparência dele era raro. Agora está a tornar-se normal. Não através de alguma política dramática — Gouveia e Melo não defendeu os direitos dos imigrantes — mas através da ausência de drama. Ninguém está a alimentar o medo sobre a sua comunidade.

Depois do trabalho, Wilson para no centro comunitário. A clínica jurídica ainda funciona — os advogados ainda ajudam com documentação, residência, burocracia — mas os casos mudaram. Menos emergências, mais processamento de rotina. O sistema de imigração não foi exatamente reformado, mas tem sido administrado com consistência. Burocracia previsível, afinal, é melhor do que hostilidade imprevisível.

O seu filho Dany, agora com dezoito anos, está a preparar-se para os exames de acesso à universidade. Engenharia, provavelmente. Vai ficar em Portugal, diz ele. "Porque haveria de partir?" Esta pergunta — tão simples para alguns — estava carregada de complicações para a geração de Wilson. Talvez esteja a tornar-se mais simples.

Jantar em casa, o habitual: arroz, feijão, peixe — cabo-verdiano com inflexões portuguesas. A mulher de Wilson, Carla, menciona que a filha da vizinha ficou noiva de um português de Setúbal. Famílias mistas, futuros mistos. As fronteiras entre comunidades estão a esbater-se, lentamente, organicamente. Nenhuma política ordena isto. Simplesmente acontece quando o medo recua.

O noticiário da noite mostra Gouveia e Melo a falar sobre segurança — o seu tema constante — e o instinto de Wilson é ficar tenso. A retórica de segurança, historicamente, significou atacar pessoas como ele. Mas este presidente usa a palavra de forma diferente. Estatísticas de criminalidade, reforma policial, atrasos nos tribunais. Segurança técnica, não segurança étnica. A distinção importa.

Antes de dormir, Wilson verifica o grupo de WhatsApp da comunidade. A conversa é mundana: planeamento de eventos, informação sobre escolas, queixas sobre barulho de obras. Os alertas de emergência que dominaram 2026 — medos de deportação, rusgas policiais, ameaças políticas — estão maioritariamente ausentes. A sua comunidade ainda tem problemas: pobreza, habitação, discriminação que nenhum presidente pode eliminar. Mas a ameaça existencial recuou.

Isto é bom o suficiente? Wilson não tem certeza. Gouveia e Melo nunca defendeu os imigrantes, nunca defendeu os seus direitos, nunca reconheceu as injustiças que enfrentam. Ele apenas... governou. Sem o ódio. Sem o bode expiatório. Sem fazer da família de Wilson alvos políticos.

Num Portugal melhor, isto não seria notável. No Portugal que quase elegeu Ventura, é tudo.

Reflexão

A experiência de Wilson sob Gouveia e Melo mostra como a ausência de atenção negativa pode ser, ela própria, uma forma de alívio. A presidência tecnocrática não defendeu as comunidades imigrantes mas também não as atacou. Para pessoas que viveram com ameaça constante, "sem incidentes" não é nada — é a pré-condição para a vida normal.