Fátima levanta-se antes do amanhecer, como sempre. O frio de janeiro na Serra não mudou; os rituais de uma vida católica não mudaram; Portugal, ao que parece, também não mudou muito. É precisamente isto que ela queria.
A missa das 8h tem pouca assistência — a aldeia encolhe a cada ano — mas o Padre Miguel fala sobre família, tradição, a âncora da fé em tempos incertos. Fátima encontra conforto nas palavras familiares. O presidente, quando aparece na televisão, fala de forma semelhante: calmo, comedido, nada radical. Um cavalheiro. Como os presidentes devem ser.
O caminho para casa leva-a pela escola fechada — as matrículas caíram abaixo do mínimo há cinco anos — e pelo centro de saúde que funciona apenas duas vezes por semana agora. Estes não são problemas novos. Não foram resolvidos por Costa, não serão resolvidos por Montenegro, provavelmente não serão resolvidos por ninguém. O interior morre lentamente. Fátima fez as pazes com isto.
O café com as vizinhas traz conversa política. A Dona Lurdes menciona o Chega — o filho dela em Viseu vota neles — com o mesmo tom com que se discutiria o tempo: inevitável, ambiente, nem celebrado nem condenado. "Dizem o que muitos pensam," observa Lurdes. Fátima acena. Marques Mendes não diz essas coisas, mas também não luta contra elas. Um caminho do meio.
As notícias da tarde mostram debates parlamentares. O Chega está ruidoso, como sempre. A AD governa, como sempre. O presidente preside, como os presidentes fazem. Houve um tempo — 2026, a campanha — quando tudo parecia urgente, existencial. Agora é simplesmente normal. A crise que não aconteceu, ou a crise tão normalizada que já não regista como crise.
A irmã visita-a para café. Discutem o habitual: pensões (estáveis), centro de saúde (pior), população da aldeia (menos). O neto de Fátima ligou do Luxemburgo na semana passada; ele não voltará, provavelmente nunca. Portugal exporta os seus jovens. Isto também é familiar.
A televisão à noite mostra Marques Mendes numa função de Estado, a apertar mãos com líderes europeus. Parece confortável, profissional, irrelevante. Fátima votou nele em 2026 — contra Ventura, na verdade, mas não admite isso. Queria estabilidade, alguém que não envergonhasse o país, alguém que falasse corretamente. Conseguiu o que queria.
As notícias também mencionam a última proposta do Chega: algo sobre imigração, algo sobre "famílias portuguesas primeiro." O governo não a adotou. Também não a rejeitou. A dança continua. Fátima não segue os detalhes. Desde que a aldeia esteja tranquila, a pensão chegue, a igreja permaneça aberta, a política pode fazer o que a política faz.
Antes de dormir, reza pela família espalhada pela Europa, pelas almas dos que partiram, por Portugal. Em que se está a tornar Portugal? Ela não tem certeza. Não é o país da sua juventude — mais diverso, mais complicado, mais secular. Mas ainda é reconhecível. A bandeira ainda tremula. A língua ainda soa a casa. A tradição aguenta, mesmo que por um fio.
Marques Mendes não transformou nada. Talvez seja essa a sua conquista — ou talvez seja esse o seu fracasso. Para Fátima, aos sessenta e sete anos, a distinção importa menos do que talvez importasse outrora. Queria paz nas suas últimas décadas. Tem algo próximo disso.