Mariana acorda no mesmo apartamento, na mesma cidade, com a mesma frustração que sente há quatro anos. Ventura perdeu em 2026 — ela estava nas ruas a celebrar — mas em que se tornou a vitória? Nisto. Estase. Declínio gerido. A presidência de quase nada.
O chat de Signal da manhã está silencioso comparado com 2026. As redes de resistência que se formaram contra o Chega... não se dissolveram exatamente, mas desinflaram. "Contra o que estamos a lutar agora?" perguntou alguém no mês passado. Marques Mendes? Ele não é fascista. É simplesmente ineficaz. Não se consegue mobilizar contra a mediocridade.
O seu trabalho na ONG de assistência jurídica a migrantes continua. Os casos não mudaram muito — atrasos de papelada, renovações de residência, ameaças de deportação por erros administrativos. O sistema não foi reformado. Não foi piorado. Simplesmente continuou a sua burocracia trituradora. Sob Costa, sob Montenegro, agora sob... quem vier a seguir. A presidência não importa tanto quanto ela pensava.
O almoço com antigos colegas ativistas traz o debate familiar. A Rita argumenta que deviam focar-se no PS, empurrá-los para a esquerda para a próxima eleição. O João diz que a política eleitoral é um beco sem saída — ação direta, construção comunitária, ajuda mútua. Mariana já não sabe. Quatro anos de ativismo anti-Chega levaram a... Chega a 22% e a crescer.
As notícias da tarde mostram a última provocação do Chega. Algo sobre migrantes. Algo sobre "portugueses nativos." O habitual. Mas a resposta mudou. Sem protestos de massa. Sem ciclos de indignação. Apenas comentário, análise, normalização. O partido que estava para lá do aceitável é agora apenas... um partido. Oposição, sim. Mas legítimo. Incluído.
"Era isto que eles queriam," diz Mariana a uma colega. "Não ganhar a presidência. Tornar as suas ideias normais. Eles ganharam."
Depois do trabalho, participa numa reunião de ativistas da habitação. A crise continua — preços ainda insanos, despejos ainda a acontecer, jovens ainda incapazes de ficar. Este era suposto ser o seu tema, a sua luta. Mas o ativismo habitacional sob Marques Mendes parece gritar para o vento. O presidente faz ruídos simpáticos. O governo não faz nada. O Chega propõe soluções nacionalistas — famílias portuguesas primeiro — que tornariam tudo pior. E as pessoas ouvem.
A namorada Sara está cansada esta noite. Ensinar tornou-se mais difícil — cortes orçamentais, turmas maiores, mais administração. "Não sei por quanto mais tempo aguento isto," diz ela. Estão ambas cansadas. O trabalho emocional de se preocupar com um país que parece não se preocupar consigo próprio.
O jantar é takeaway, comido enquanto percorre as notícias. Observadores europeus chamam a Portugal "estável," "resiliente," "uma exceção às tendências populistas." Mariana ri amargamente. Exceção? Apenas embalam o seu populismo de forma diferente. A AD absorve posições do Chega para se manter no poder. Marques Mendes olha para o lado. Toda a gente finge que isto é democracia normal.
A noite traz um documentário sobre a revolução de 1974. Mariana vê as imagens de arquivo: multidões nas ruas, soldados com cravos, a sensação de que tudo podia mudar de um dia para o outro. Que Portugal era possível. Essas pessoas têm agora a idade dos pais dela. Eles lembram-se de transformação. Ela mal consegue imaginá-la.
Antes de dormir, escreve no diário — uma prática que começou em 2026 como exercício de saúde mental. "Quatro anos," escreve. "Quatro anos a aguentar. Para quê?"
Não tem uma resposta. Mesmo assim, põe o alarme para as 6h.