Paula começa o turno na fábrica têxtil às 6h, como tem feito há vinte e cinco anos. O frio de inverno infiltra-se no edifício; o aquecimento é mínimo. Há coisas que eleições presidenciais não mudam.
Mas sente-se representada, pelo menos. Seguro é do mundo PS que ela conhece — contactos sindicais, linguagem operária, a promessa social do partido que os pais apoiavam. Quando ele fala sobre direitos laborais, salários, proteção, ela reconhece as palavras. Se as palavras se tornam realidade é outra questão.
O trabalho da manhã é repetitivo, familiar. A fábrica sobreviveu aos anos de crise, à pandemia, ao choque energético. Sobrevive agora com encomendas da UE que Seguro ajudou a negociar — Portugal bem posicionado nas cadeias de abastecimento europeias, as competências diplomáticas do presidente aparentemente úteis. Paula não percebe de economia. Percebe que as encomendas continuam a chegar.
O almoço na cantina traz conversa política. A colega Célia votou PSD mas não se arrepende de Seguro. "Pelo menos é decente," diz ela. A fasquia é baixa. Depois de anos de escândalos de corrupção, instabilidade, ameaças do Chega, "decente" parece uma conquista. Paula concorda, cautelosamente. Decente não lhe cura as costas nem lhe aumenta o ordenado.
As notícias da tarde mencionam negociações do salário mínimo. O governo — AD, não PS — está a resistir a aumentos maiores. Seguro defende publicamente os trabalhadores, mas não pode forçar políticas. A frustração é familiar: um presidente que fala a sua linguagem, um governo que não ouve. Coabitação. Palavra francesa para impasse português.
Depois do trabalho, Paula participa numa reunião sindical. A representante da CGTP discute negociações de contratos, saúde e segurança, direitos de pensão. Estas batalhas antecedem Seguro e vão sobreviver-lhe. A presidência é simbólica; a luta é material. Paula sabe disto. Ainda assim, símbolos importam. Ver alguém em Belém que menciona trabalhadores sem desprezo — é alguma coisa.
A filha liga durante o jantar. Está em Lisboa agora, a trabalhar num call center, a partilhar apartamento com mais três. A crise de habitação toca até famílias do norte. "Quando vens visitar?" pergunta Paula. "Quando puder pagar o comboio," a filha ri, não propriamente a brincar.
As notícias da noite mostram Seguro numa cimeira da UE, a defender a Europa social, salários mínimos, proteções laborais. Paula vê com orgulho e ceticismo entrelaçados. Ele luta bem em Bruxelas. Mas o campo de batalha que importa — locais de trabalho portugueses, salários portugueses, habitação portuguesa — é controlado por outros.
Antes de dormir, Paula calcula o orçamento mensal. As contas são apertadas, como sempre. A presidência de Seguro não mudou isto. Talvez nenhuma presidência pudesse. Mas vai votar PS outra vez, quando vierem eleições legislativas. A alternativa — AD a continuar, Chega a crescer, trabalhadores mais esquecidos — é pior.
"Pelo menos alguém está a dizer as coisas certas," diz a si própria. Não é suficiente. Mas não é nada.