História de Futuro

Inês Almeida, 27, Ativista Progressista Urbana

Santos, Lisboa

15 de janeiro de 2030

Inês acorda no apartamento apertado que partilha com duas outras ativistas. A renda leva metade do rendimento — a crise de habitação de que Seguro fala mas não consegue resolver. "Falar" sendo a palavra operativa da sua presidência.

O café da manhã vem com debates no chat de grupo. O coletivo climático dela está dividido: trabalhar com estruturas do PS que Seguro energiza, ou manter independência? O presidente tornou a retórica ambiental padrão — emergência climática, transição verde, metas da UE — mas o governo da AD implementa lentamente. Inês pertence à fação que vê isto como pior do que obstrução honesta. Pelo menos com Ventura, sabe-se onde se está.

O trabalho numa ONG ambiental traz contacto com funcionários do governo. São simpáticos, maioritariamente. "O presidente apoia isto," dizem sobre várias propostas. Apoio que não se torna política é apenas performance. Inês aprendeu a distinguir aliados que entregam de aliados que fazem pose. Seguro fica algures no meio — bem-intencionado, talvez, mas estruturalmente limitado.

Almoço com ativistas do BE que apoiaram Catarina Martins em 2026. "Nós avisámos," diz uma. "Seguro é PS. PS dececiona. É o que fazem." Inês votou em Seguro na segunda volta — contra Ventura — mas a crítica acerta. O que é que a coligação anti-Chega realmente conseguiu? Um presidente com melhor discurso enquanto os mesmos problemas persistem.

A tarde traz um protesto de habitação no Martim Moniz. Mais pequeno do que as mobilizações de 2026; a energia dissipou-se. Seguro visitou um projeto habitacional no mês passado — oportunidade de foto, palavras simpáticas. Os despejos continuaram no dia seguinte. Este é o padrão: atenção presidencial que não se traduz em proteção.

A caminho de casa, Inês passa por estaleiros de obras — apartamentos de luxo, desenvolvimentos turísticos, a máquina de gentrificação a moer em frente. O governo da AD protege interesses de investidores; o presidente PS fala sobre acessibilidade. A dissonância cognitiva é exaustiva. Ou se luta contra a máquina ou se é cúmplice. Oposição simbólica de Belém não é lutar.

O jantar com o coletivo traz planeamento de ações de primavera. Alguém propõe coordenar com a juventude PS — a presidência de Seguro trouxe nova energia ali. Inês é cética. "Cooptação," avisa. "Vão absorver as nossas exigências e não entregar nada." Mas a alternativa — isolamento, pureza, irrelevância — também não é apelativa.

As notícias da noite mostram Seguro a reunir com líderes sociais-democratas europeus. As imagens ficam bem: vocabulário progressista, linguagem de solidariedade, tudo aquilo em que Inês acredita em palavras. Mas palavras em Bruxelas enquanto famílias são despejadas em Lisboa — o fosso é insuportável.

Antes de dormir, Inês lê teoria — Gramsci, Bookchin, ecossocialistas contemporâneos. À procura de enquadramentos que expliquem porque isto continua a acontecer. Porque é que presidentes de centro-esquerda falam à esquerda e governam ao centro. Porque é que esperança se torna deceção se torna cinismo se torna abstenção. O ciclo que ela tem observado toda a vida adulta.

Vai continuar a lutar. Não por Seguro — apesar dele, se necessário. Mas a energia que se construiu em 2026, a sensação de que as coisas podiam mudar, dissipou-se largamente. Portugal ficou com a opção menos má. Menos mau continua a ser mau.

Reflexão

Inês experiencia a presidência de Seguro como deceção sofisticada. Os seus valores progressistas encontram eco verbal em Belém mas nenhuma mudança estrutural. Para ativistas de esquerda, a presidência de centro-esquerda levanta a questão de se a representação simbólica possibilita ou inibe a transformação real — e se trabalhar dentro do sistema ou contra ele faz mais sentido.