Pedro acorda às 5:30 da manhã no seu pequeno apartamento, o mesmo que arrenda há dezoito anos. A renda aumentou novamente este ano—"forças de mercado", disse o senhorio—mas Pedro não culpa Ventura por isso. Culpa as mesmas pessoas que sempre culpou: os políticos que vieram antes, o sistema que esqueceu pessoas como ele.
A máquina de café borbulha enquanto ele desliza pelo telemóvel. O Correio da Manhã abre com o último discurso de Ventura: "Quatro anos a limpar a casa." Pedro sorri ligeiramente. Lembra-se de votar em 2026—o seu primeiro voto em vinte anos. A sensação de finalmente ter alguém a falar a sua linguagem.
No armazém onde trabalha há dezasseis anos, o ambiente entre os colegas é misto. O Zé, que está lá há ainda mais tempo, também votou no Ventura. Às vezes trocam olhares cúmplices quando as notícias mencionam mais uma "investigação" a alguma figura do PS dos velhos tempos. Mas o Ricardo, o supervisor de turno mais jovem, guarda as opiniões para si agora. Miúdo esperto.
A conversa do almoço é diferente do que costumava ser. Antes de 2026, a política era ou aborrecida ou deprimente. Agora está viva. Controversa, claro. A cunhada do Pedro já não lhe fala—chamou-lhe fascista num jantar de família há dois anos. Problema dela, pensa ele. Mas há algo satisfatório em já não se sentir invisível.
A caminho da cantina, Pedro passa pelo Amadou, o trabalhador senegalês que se juntou ao armazém há três anos. Acenam um ao outro. Pedro não tem nada contra o Amadou pessoalmente—ele trabalha muito, fica na dele. Mas Pedro acha que estão a entrar demasiados, demasiado rápido, sem ninguém perguntar aos portugueses se queriam isto. Isso não é racismo, diz a si mesmo. É só bom senso.
A tarde arrasta-se. As costas doem-lhe mais nestes dias. O aumento que lhe prometeram não se materializou—os lucros da empresa subiram, mas a gestão diz que "incerteza económica" impede aumentos salariais. Pedro votou pela mudança, mas o seu ordenado parece igual. Às vezes, tarde na noite, isto incomoda-o. Mas depois vê a alternativa—as mesmas pessoas que o ignoraram durante décadas—e sabe que fez a escolha certa.
Depois do trabalho, Pedro para no café onde é cliente há trinta anos. A televisão mostra um debate parlamentar. Ventura está a falar, dedo apontado, voz a subir. O dono do café, o Senhor Domingos, abana a cabeça. "Ele fala muito," diz cautelosamente, observando a reação do Pedro.
"Pelo menos fala do que interessa," responde Pedro. "Não é como os outros que só falavam uns com os outros."
Domingos encolhe os ombros. Aprendeu a não discutir. O bairro mudou desta forma—as pessoas são mais cuidadosas com o que dizem, a quem o dizem. Pedro vê isto como um sinal de que finalmente a malta do "politicamente correto" já não consegue silenciar as pessoas comuns. Outros veem de forma diferente.
À noite em casa, Pedro vê as notícias com uma cerveja. Há uma reportagem sobre um acampamento cigano a ser "realojado" após queixas de residentes. O repórter usa linguagem neutra; o porta-voz de Ventura chama-lhe "restaurar a ordem." Pedro não conhece nenhum cigano pessoalmente. Nunca visitou as suas comunidades. Mas ouviu histórias—toda a gente ouviu—e o presidente parece saber do que fala.
A filha telefona. Está em Londres agora, há cinco anos. Já não visita muito. "Não consigo, pai," disse ela da última vez que falaram sobre isso. "Não é o país onde cresci." Pedro não compreende isto. Portugal parece-lhe igual—melhor, até. Ruas mais limpas em alguns sítios. Mais bandeiras. Mais orgulho.
Antes de dormir, Pedro verifica o saldo bancário. Ainda mal chega. As investigações à corrupção não lhe puseram dinheiro no bolso. A retórica dos "verdadeiros portugueses" não lhe arranjou as costas nem aumentou a pensão. Mas quando fecha os olhos, lembra-se da sensação de entrar naquela cabine de voto em 2026, marcando o seu boletim por alguém que iria abalar as coisas.
Essa sensação foi real. O resto... o resto é complicado.