História de Futuro

Mariana Santos, 33, Ativista Progressista Urbana

Graça, Lisboa

15 de janeiro de 2030

No futuro "André Ventura"

Mariana acorda com o telemóvel a vibrar com mensagens de Signal. O chat de grupo—"Resistência Democrática"—está a planear a ação de hoje: uma vigília silenciosa frente à Assembleia da República para assinalar quatro anos da presidência de Ventura. Ela lê a logística, os contactos dos observadores legais, os planos de contingência. Tornaram-se bons nisto. Talvez demasiado bons.

O café é feito no pequeno apartamento que partilha com outros dois, todos ativistas, todos exaustos. A renda subiu 40% desde 2026—Ventura não causou isto, mas as suas propostas de política de habitação não foram a lado nenhum enquanto os senhorios continuavam a subir os preços. A ironia não lhes escapa: estão a lutar contra uma presidência que mal conseguem pagar para viver.

Turno da manhã na ONG onde trabalha—assistência jurídica a migrantes. O escritório em Intendente costumava ser caótico com casos; agora está mais calmo. Menos chegadas, mais deportações, as pessoas que poderiam ter vindo para Portugal escolhendo Espanha ou França em vez disso. O trabalho mudou: menos casos de "ajuda-me a estabelecer," mais casos de "ajuda-me a ficar." O desespero mudou de textura.

A colega Rita trata de um caso da manhã até ao almoço: uma mulher de São Tomé, vinte e três anos em Portugal, enfrentando deportação devido a uma lacuna nas suas contribuições para a segurança social durante um período de doença. As regras existiam antes de Ventura; a aplicação mudou depois dele. "Rigor seletivo," chamam-lhe os advogados. Tecnicamente legal. Eticamente falido.

O almoço é uma sandes na secretária, a verificar redes sociais. As contas de direita estão a celebrar o aniversário—quatro anos de "pôr Portugal primeiro," a linguagem deles tem o seu próprio vocabulário agora. As contas de esquerda estão de luto, a resistir, a organizar. O centro está maioritariamente silencioso, exausto, à espera que as coisas voltem ao normal. Mariana quer abaná-los: isto É o novo normal.

A vigília da tarde reúne talvez 200 pessoas. Há quatro anos, depois da eleição de Ventura, 10.000 marcharam em Lisboa. A energia dissipou-se. Não porque as pessoas concordem com Ventura—o contra-movimento tem mais apoio do que nunca—mas porque a resistência permanente é exaustiva. Alguns emigraram. Alguns viraram-se para dentro. Alguns simplesmente desistiram.

Mariana fala brevemente com uma jornalista do Público. Aprendeu a ter cuidado: manter-se na mensagem, não dar munições, evitar frases que possam ser cortadas fora de contexto. A jornalista é simpática mas cansada. "Mesma história, ano diferente," diz ela, sem maldade. Mariana acena. A história É a mesma. Esse é o problema.

Depois da vigília, encontra amigos num bar no Bairro Alto. A conversa é mista: política, relações, quem namora quem, quem vai deixar Portugal. Metade da sua coorte universitária está no estrangeiro agora. Os que ficaram ou estão comprometidos com a mudança ou presos sem opções. Mariana é ambos.

A namorada, Sara, chega tarde. É professora numa escola pública, a enfrentar novas diretrizes de "educação patriótica" que é suposto implementar. Não vai fazê-lo. As consequências não são claras—provavelmente nada, as diretrizes são voluntárias por agora—mas a direção é clara. "Sinto que estou sempre à espera do próximo passo," diz Sara. "Sempre à espera."

O jantar é vinho barato e tapas partilhadas. O grupo fala sobre o que vem a seguir: eleições autárquicas, o Parlamento Europeu, a próxima corrida presidencial. Alguns argumentam por estratégias internas—apoiar o PS, esperar por melhor. Outros querem pressão externa—ação direta, desobediência civil, tornar o país ingovernável. Mariana já não sabe. Ambos os caminhos parecem levar ao mesmo lugar: Ventura em Belém, a sorrir.

A caminho de casa através de Alfama, Mariana passa por um grupo de turistas a fotografar uma cantora de fado numa esquina. Portugal, versão postal. Ela lembra-se de acreditar que este país era diferente—o "bom europeu," a exceção tolerante, o lugar que absorvia a diferença em vez de a rejeitar. Talvez isso sempre tenha sido um mito. Talvez fosse ingénua.

Em casa, verifica o Signal mais uma vez. Planeamento de amanhã: mais um caso, mais uma vigília, mais uma batalha numa guerra que pode já estar perdida. Vai aparecer na mesma. Não porque tenha a certeza de que vão ganhar, mas porque a alternativa—entregar o futuro a pessoas que a querem, e a todos os que ama, longe—é impensável.

O sono chega lentamente. Quatro anos. Quantos mais?

Reflexão

Mariana personifica a oposição progressista: organizada, comprometida, exausta. Não desistiu, mas está a perder a fé de que a resistência sozinha possa mudar a direção. A experiência dela mostra como a governação adjacente ao autoritarismo, sustentada, desgasta a oposição por atrito, não por confrontação dramática.