História de Futuro

Fernando Pinto, 56, Pequeno Empresário

Leiria

15 de janeiro de 2030

Fernando chega à fábrica às 7h, como faz há trinta anos. O negócio familiar de móveis — iniciado pelo pai em 1968 — emprega agora quarenta e três pessoas, mais do que as trinta e oito de 2026. Crescimento. Modesto, mas real.

A manhã é passada a rever encomendas. O portal digital para documentação de exportação — uma daquelas iniciativas de "modernização" que Gouveia e Melo defendeu — realmente facilitou as coisas. Fernando lembra-se de passar dias inteiros em papelada que agora leva horas. Nunca o admitirá publicamente, mas a burocracia melhorou.

O café com a sua contabilista, Dona Fátima, traz as discussões habituais. O imposto sobre as empresas manteve-se estável — o governo resistiu à pressão para o aumentar, citando a competitividade. A regulamentação laboral apertou ligeiramente mas previsivelmente. "Pelo menos podemos planear," observa Fátima. Planear era impossível nos anos de Costa, com legislação surpresa a cada poucos meses. Agora há um ritmo.

O chão de fábrica funciona sem problemas. Fernando atravessa-o, cumprimentando os trabalhadores pelo nome. O João, o supervisor de produção, menciona que a escola do filho tem melhor financiamento este ano — algo sobre reforma da educação. Fernando não acompanha os detalhes, mas os seus trabalhadores parecem menos desesperados do que estavam. Os salários subiram com o aumento do salário mínimo; os seus trabalhadores qualificados exigiram mais para manter a diferença. Economia.

Almoço no restaurante onde se juntam os empresários locais. A conversa é cautelosamente otimista. O Pedro, que gere uma operação de cerâmica, conseguiu um contrato de exportação com a Suécia — os gabinetes de promoção comercial realmente ajudaram, diz ele, surpreendido. O Mário, que é dono de um hotel, queixa-se da regulamentação turística mas reconhece que as reservas estão fortes. Ninguém adora o governo. Ninguém o teme também.

A tarde traz um visitante inesperado: um funcionário do desenvolvimento regional a oferecer financiamento para modernização de maquinaria. Empréstimos a juros baixos, fundos europeus canalizados mais eficientemente do que antes. Fernando está desconfiado — já viu programas governamentais que prometem e desaparecem — mas o funcionário tem números específicos, prazos claros. Talvez este seja real.

Depois do trabalho, Fernando para no café no centro da vila. A televisão mostra Gouveia e Melo a falar sobre política industrial, cadeias de abastecimento, redução da dependência da manufatura asiática. Fernando concorda com tudo. Se vai acontecer é outra questão. Mas pelo menos alguém fala a linguagem da produção, não apenas do consumo.

Jantar em casa com a mulher, Maria José. O filho Ricardo finalmente voltou da Bélgica — o setor de TI em Portugal está a crescer, e Lisboa ofereceu um salário que quase igualava Bruxelas. Quase. "Não é pelo dinheiro," disse o Ricardo. "É casa." Fernando pergunta-se se isto conta como sucesso político ou preferência pessoal.

A noite traz reflexão. Há quatro anos, Fernando votou em Gouveia e Melo esperando a disciplina de um general aplicada ao caos português. O que obteve foi... gestão adequada. Os tribunais são ligeiramente mais rápidos. A burocracia é ligeiramente mais leve. Os escândalos de corrupção são ligeiramente menos. Nada revolucionário. Tudo incremental.

É suficiente? Fernando olha para o seu livro de encomendas — mais cheio do que em 2026 — para a sua força de trabalho — ligeiramente maior, ligeiramente melhor paga — para o seu filho — regressado a casa depois de uma década no estrangeiro. Os números sugerem que sim. A frustração diz que não completamente. Queria mais. Quer sempre mais. É por isso que é empresário.

Antes de dormir, verifica o plano de produção de amanhã. Encomendas da Alemanha, França, Países Baixos. Portugal a fazer coisas que o mundo quer comprar. Não por causa de Gouveia e Melo, exatamente — os fundamentos sempre estiveram lá — mas pelo menos este presidente não estragou nada.

Às vezes, pensa Fernando, não estragar as coisas é subestimado.

Reflexão

Fernando representa a perspetiva empresarial pragmática: julgar governos pelos resultados, não pela retórica. Sob Gouveia e Melo, o seu negócio cresceu modestamente, a burocracia aliviou e a incerteza diminuiu. Não é a transformação que poderia ter querido, mas é melhoria tangível — e no seu mundo, tangível supera teórico.