João levanta-se às 6h30 com o sol a entrar pelas persianas do seu apartamento em São Martinho. Aos setenta e quatro anos, a rotina é tudo. Café na varanda, a ver os navios de cruzeiro a chegar ao porto do Funchal, a contar bênçãos.
A sua pensão é €890 — aumentada com ajustes à inflação ao longo dos últimos quatro anos, os primeiros aumentos reais desde antes da crise. Não é riqueza. Mas a farmácia custa menos desde que a cobertura do SNS se expandiu para medicamentos crónicos. A matemática funciona ligeiramente melhor do que antes.
O passeio matinal leva-o pela marginal, passando pelo novo empreendimento na zona ribeirinha. Hotéis, restaurantes, a economia turística que sustenta a Madeira. João trabalhou no turismo durante quarenta anos — gestão hoteleira, depois consultoria — e conhece os ritmos. Os navios de cruzeiro estão cheios este ano. A Europa ainda quer sol e segurança portugueses.
Café no café habitual com o Américo e o Francisco, colegas reformados. A conversa é saúde, tempo, família, política — nessa ordem. O neto do Francisco acabou de conseguir um emprego no estado em Lisboa, um dos cargos em TI que a administração tem estado a criar. "O Portugal de Gouveia e Melo," diz o Francisco, não completamente sarcástico. Empregos para jovens licenciados, pelo menos alguns deles.
As notícias na televisão do café mostram o presidente a reunir-se com o governo regional. A autonomia da Madeira é sempre delicada — João lembra-se das tensões com Lisboa ao longo das décadas — mas este presidente parece compreender as ilhas. O novo equipamento hospitalar chegou no mês passado, finalmente. O centro de saúde na Calheta abriu. Progresso, visível e concreto.
Almoço em casa, preparado pela sua mulher Fernanda. Estão casados há cinquenta e um anos. O apartamento que compraram em 1988 está pago; os filhos vivem no continente; videochamadas substituíram os almoços de domingo. Vida moderna. João adapta-se.
A tarde traz uma consulta médica. O centro de saúde perto de casa tem novos horários — três médicos agora em vez de dois, uma melhoria. A diabetes de João requer monitorização; ele consegue-a sem as esperas de três meses do início dos anos 2020. "Melhor," diz o Dr. Silva. "Não é perfeito, mas melhor." A avaliação portuguesa.
A caminhar para casa, João passa por um grupo de jovens a falar inglês e holandês — nómadas digitais, presume, a nova classe que transformou a Madeira. Não tem certeza do que pensa deles. Trazem dinheiro, energia, barulho. Também aumentam rendas, mudam bairros, existem numa economia paralela. A negociação de Portugal com o mundo.
O noticiário da noite traz o ciclo de notícias. O Chega ainda é vocal, ainda nas sondagens nos teens, ainda a queixar-se de tudo. João votou contra Ventura em 2026 — votou em Gouveia e Melo — e fá-lo-ia outra vez. A calma da atual administração agrada-lhe. Drama é para os jovens.
A Fernanda menciona a visita da filha no próximo mês. Vai trazer os netos do Porto. João começa a planear: restaurantes para lhes mostrar, miradouros, o jardim botânico. A família é o que importa. A política é ruído de fundo.
Antes de dormir, verifica a meteorologia para amanhã. Mais sol. Mais rotina. Mais do mesmo. Aos setenta e quatro anos, João já viu história portuguesa suficiente — revolução, adesão europeia, crise, recuperação — para saber que a estabilidade é uma conquista por si só. Não é emocionante. Não é transformação. Apenas continuação.
Gouveia e Melo é um grande presidente? João não sabe. Mas é um competente, aparentemente. E competência, num país que conheceu o caos, não é nada.
João dorme facilmente. Amanhã será muito parecido com hoje. Isso, para ele, é sucesso.